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Na sua forma de execução, na extensão da destruição conseguida e, na
seleção de seu objetivo, o reide de Guernica não tem paralelos na história
das guerras. A cidade não era objetivo militar. Uma fábrica de material
bélico, ao lado da cidade, permaneceu intacta, assim como acampamentos
militares situados a pouca distância da cidade. Guernica estava muito
atrás das linhas de combate. O objetivo do bombardeio foi a desmoralização
da população civil e a destruição do berço da raça basca. Todos os fatos
confirmam essa afirmação, desde o dia escolhido para o feito.
Segunda-feira era o dia habitual do mercado em Guernica. às 4h 30 da
tarde, quando o mercado já estava repleto e os camponeses ainda chegavam,
o sino da igreja deu o alarma anunciando a proximidade de aviões; a
população procurou se esconder nos porões e em abrigos antiaéreos
preparados após o bombardeio da população civil de Durango, em 31 de
março, que inaugurara a ofensiva do General Mola no norte.
Cinco minutos depois, um único bombardeiro alemão apareceu, fez um
círculo rasante sobre a cidade, e deixou cair seis bombas pesadas, tendo
como alvo aparente a estação. As bombas, e mais uma cortina de granadas,
atingiram um antigo instituto, casas e ruas à sua volta. Então o avião foi
embora. Depois de mais de 5 minutos, apareceu um segundo bombardeiro, que
jogou o mesmo número de bombas no centro da cidade. Cerca de 15 minutos
depois, três Junker chegaram para completar o trabalho de destruição, e
daí por diante o bombardeio se intensificou e tornou-se contínuo, cessando
somente com a aproximação da noite, às 19h45. Toda a cidade de 7000
habitantes e mais 3000 refugiados foi vagarosa e sistematicamente feita em
pedaços. Num raio de 8 quilômetros, um detalhe da técnica dos reides for
bombardear " caserios" ou fazendas isoladas. De noite, elas queimavam como
velinhas nas montanhas. Todas as vilas vizinhas foram bombardeadas com a
mesma intensidade e, em Mugica - pequeno grupo de casas na entrada de
Guernica -, a população foi metralhada durante 15 minutos.
As táticas dos bombardeiros foram as seguintes: (....) de início, granadas
de mão e bombas pesadas para fazer a população debandar em pânico; depois,
descargas de metralhadoras para obrigar as pessoas a se deitar;
finalmente, pesadas bombas incendiárias para arruinar as casas e fazê-las
cair em chamas sobre suas vítimas."
O Correspondente do "Echo de Paris", também deu seu testemunho, em 30 de
abril de 1937:
"Informa uma fonte diplomática que o Alto Comando da Força Aérea alemã fez
arranjos para que seus pilotos mais experientes servissem na Espanha, sob
o comando do General Francisco Franco, líder das forças rebeldes. Assim a
Alemanha está utilizando a Guerra Civil espanhola como uma escola de
treinamento para seus aviadores militares.
Informações obtidas de fontes seguras daqui indicam que o General Hermann
Goering, ministro da Aviação alemã, tomou a iniciativa de ordenar o
bombardeio e a destruição de Guernica. Pretendia dar uma demonstração
prática do quanto os combates aéreos podem realizar, defendendo algumas de
suas concepções trágicas e estratégicas, postas em dúvida, algumas vezes,
pelos generais do Exército alemão."
Para melhor ilustrar o sentimento que grassou naquelas almas e corações
feridos, convém citar a nota oficial da Prefeitura de Guernica,
dirigindo-se ao povo espanhol, em 4 de maio de 1939:
"Em pé, diante desde microfone, quero contar o que os meus olhos viram
no lugar do que já foi Guernica, e tomo Deus como
testemunha:
Envergonhados pelo monstruoso crime que cometeram, os rebeldes apelam para
a falsidade para camuflar, para negar a mais vil das proezas da História,
a total e absoluta destruição da cidade de Guernica.
Aquele dia fatal, 26 de abril, era dia de mercado e a cidade estava cheia
de gente. Em Guernica havia milhares de camponeses de toda a vizinhança,
numa atmosfera de camaradagem basca, e ninguém suspeitava de que uma
tragédia se aproximava.
Pouco depois das quatro da tarde, aviões jogaram nove bombas no centro da
cidade. Procurávamos os feridos, quando mais aviões surgiram, jogando todo
tipo de bombas, incendiárias e explosivas.
As feras que pilotavam tais aviões, logo que avistavam nas ruas ou fora da
cidade uma figura humana, focalizavam nela suas metralhadoras, semeando
terror e morte, entre mulheres, crianças e velhos. Tal foi a tragédia de
Guernica, cuja verdade, eu, prefeito da cidade, afirmo diante do mundo
inteiro.
A Milícia estacionada em Guernica, naquele dia, era exatamente a mesma que
havia confraternizado todos esses meses com o povo de Guernica, ganhando
sua afeição. Foi a primeira a prestar auxílio naqueles momentos terríveis.
Não foi nossa milícia que ateou fogo a Guernica, e se o juramento de um
alcaide cristão e basco tem algum valor, juro diante de Deus e da História
que aviões alemães bombardearam cruelmente nossa cidade até riscá-la do
mapa.”
Guernica foi ferida, mas não morrerá. Da árvore brotarão novas folhas
verdes em toda primavera; seus filhos a ela retornarão; suas casas serão
reconstruídas, suas igrejas escutarão novamente seus hinos e
preces...
Guernica, o símbolo de nossas liberdades nacionais, e o símbolo da
ferocidade do fascismo internacional, não pode morrer."
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Fonte: História do Século 20, volume 4 – Abril
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