Garbo, o espanhol: uma lenda na espionagem aliada

                                                                                           Oriza Martins

           Naqueles dias beligerantes da Segunda Guerra Mundial, os serviços de inteligência de ambos os lados fervilhavam, constituindo um verdadeiro emaranhado de blefes e de informações interceptadas e trocadas através dos meios mais inusitados. 

                  O papel dessas redes subterrâneas foi importante no desenvolvimento do conflito mundial.

                  Já antes da Guerra, a Polônia passara à Inglaterra uma amostra da máquina de códigos secretos utilizada pelos alemães, a "Enigma" . O código foi decifrado pelos ingleses e utilizado na Batalha da Inglaterra. Rastreando os sinais de rádio, a inteligência britânica podia estimar com precisão a força e a época de um ataque inimigo.

                  Em maio de 1944, através do rádio, os franceses ouviam as palavras de seu líder Charles de Gaulle, exilado em Londres, transmitindo coragem aos compatriotas, através das ondas da Rádio BBC e conclamando a nação à resistência.

                  Cresciam intensamente os rumores de que os Aliados em breve invadiriam a Europa para libertar do jugo alemão os países ocupados. Imaginava-se que a invasão naturalmente deveria acontecer através do norte da França, procedendo da Inglaterra, onde há meses concentravam-se grandes contingentes de tropas aliadas. As redes de espionagem internacionais fervilhavam em suposições sobre o possível local de desembarque dos Aliados: se a invasão aconteceria através da Normandia ou - o que seria mais provável devido à curta distância da Inglaterra - pelo Passo de Calais.

                   Os grupos da Resistência Francesa mantinham-se atuando intensamente, preparando o terreno para a invasão aliada.  Os objetivos desses heróis do povo eram praticar atos de sabotagem visando principalmente incapacitar as vias de comunicação da França, para dificultar ao máximo a reação dos alemães à invasão.

                    Muitos espiões eram ligados ao MI5 - Serviço Britânico de Inteligência - que mantinha agentes duplos, de várias nacionalidades, em toda a Europa.

                   Um desses agentes era um espanhol de codinome Garbo, que se tornou uma verdadeira lenda na espionagem aliada. 

                   Garbo era cidadão da Espanha, país neutro no conflito, mas nutria um forte sentimento antinazista. Por essa razão ofereceu-se à Embaixada Britânica em Lisboa para atuar como espião em favor dos Aliados. Lisboa constituía, na época, o epicentro dos serviços de espionagem internacional, pois Portugal também mantinha-se neutro no conflito, numa localização estratégica. Os ingleses, a princípio, suspeitaram das intenções de Garbo que decidiu, então, iniciar um notável trabalho individual. Conseguiu enganar os alemães, fingindo aliar-se à Abwher, a agência oficial de espionagem nazista,  e passou informações fictícias e verdadeiramente cinematográficas, colhidas a partir de leituras em manuais geográficos e turísticos a respeito do estilo de vida inglês. Ele residia em Lisboa, mas, como se fosse um grande roteirista de cinema, simulava estar remetendo os dados a partir da Inglaterra. Nessa época, os alemães já não conseguiam mais sobrevoar as terras inglesas, pois haviam perdido o controle aéreo da região. Dessa forma, aceitavam as informações enviadas por Garbo como reais. Com o tempo, os serviços de inteligência aliados acabaram de fato por recrutar Garbo, levando-o à Inglaterra para utilizá-lo na preparação da Operação Overlord, ou seja, o Dia D, o dia da grande invasão da Europa.

 

 

 

 

 


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