JOSÉ MARTIN ESCUDERO e ANA
ESCUDERO VAL VERDE, casal espanhol, emigrou
para o Brasil em 1927, acompanhado pelos filhos (Ana, Pilar, José,
João, Maria, Vitória) e alguns primos. O filhinho mais jovem
faleceu durante a travessia do Atlântico. Ana passou a noite toda
velando o filho, solitária, antes de seu corpo ser entregue ao seio
do Atlântico, e jamais ela se esqueceu desses momentos.
No Brasil, estabeleceram-se na região noroeste do Estado de São
Paulo, em Planalto, trabalhando na agricultura. Aqui no Brasil, tiveram
outro filho - Emilio.
José e Ana pertenciam ambos à família Escudero - eram
primos. Residiam em Torviscon, onde nasceu a filha Pilar, minha mãe.
Dedicavam-se, na Espanha, à agricultura - almendros, uva,
vinho. Sua propriedade chamava-se "Las tres hermanas".
Outro ramo da família de Ana - Val Verde - era de Albuñol,
onde o pai - Santiago - foi alcaide no início do século XX.
Tratava-se de família tradicional na região. Anos após
chegarem ao Brasil, Ana recebeu uma herança através do Consulado,
em São Paulo.
Como a maioria dos imigrantes, no Brasil, Ana e José enfrentaram
tempos difíceis. Ela, em especial, estava acostumada a um padrão
de vida privilegiado na Espanha, roupas finas, meias de seda. Logo ao chegarem,
foram roubados no porto de Santos, perdendo vários baús com
grande parte dos objetos e valores trazidos da Espanha. Mas, de índole
calma, pacífica, Ana sempre aceitou com dignidade e perseverança
as adversidades enfrentadas.
José era o típico espanhol: determinado, trabalhador, interessado
na conjuntura mundial - do tipo "anarquista, graças a Deus".
Dizem que era dissidente político na Espanha. Costumávamos
manter calorosos embates ideológicos, embora eu fosse ainda muito
jovem. Ele adorava leitura informativa, especialmente as Seleções
do Readers Digest, que eu também apreciava e assinava. Já
em idade avançada, nos anos 60, meu avô José caminhava
muitos quarteirões para buscar o exemplar de O ESTADO DE SÃO
PAULO que só chegava aos confins do interior paulista pelo correio,
com um dia de atraso.
Ana faleceu em janeiro de 1961, em Fernandópolis, e José,
três anos depois, em Penápolis, em janeiro de 1964. |